O ÚLTIMO ENCONTRO

Ano 12 – vol. 12 – n. 78/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.14582816

– Oi, meu irmão!

Um beijo na testa, um aperto de mão e um certo incômodo – é inegável. Uma sensação estranha. 

Hoje constato: aquele foi nosso último encontro. 

De desencontros todos vivem, sobretudo irmãos. Nós não fomos diferentes. Felizmente nossos encontros foram maiores. 

De cada um de nós a vida cobra um preço. Hoje, no último dia do ano, quando imaginei que seria uma data para relembrar minha chegada ao Texas, há 51 anos, sou alcançado pela mensagem de meu irmão mais velho – José Sérgio – de que nosso irmão mais novo – José Reinaldo – acabou de falecer, após enfrentar uma batalha de UTI. 

O primeiro movimento é sentir a impotência, porque não há voos disponíveis para hoje num Brasil desorganizado. O que fazer? Escrever soa como alternativa possível.

Preso no quarto de hotel me vejo refém de sentimentos que, felizmente, possuem saldo positivo porque o amor ensinado por nossos pais foi maior. 

Já não poderei dizer que tenho um irmão caçula, apenas um irmão mais velho que ocupou o lugar do primogênito. E se na dor da partida do primeiro eu estava em companhia dele, do último dos filhos eu estou distante, jamais ausente. 

Não quero repartir dores. A dor é minha e só eu sei como estou. Mas desejo, sim, dividir a crença de que ainda hoje meu irmão estará no banquete do Senhor, com nossos pais e irmão. 

Do gordinho fica a irreverência, as brincadeiras, a forte religiosidade e as memórias de nossa viagem do circuito católico rumo à Terra Santa. Bons tempos.

A vida nos permitiu pedir perdão com o olhar. Imagino que tenhamos feito reciprocamente isso naquele dia porque após a cirurgia a que foi submetido me mandou um recado. 

Em mim fica uma imensa saudade de quem não ficou. Mas também fica uma eterna lembrança de quem dividiu conosco o mesmo quarto na Avenida João Pessoa, n 58, do Apeadouro. 

Segue em paz, meu irmão. Beija nossos pais e diga-lhes que ficamos por aqui vendo mais uma estrela no céu. Que Deus seja misericordioso e que saibas enfim que sempre te amei.

A BRISA DO BRIZENO

Ano 12 – Vol. 12 – N. 77/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.14580149

Há pessoas que sem muito esforço conseguem despertar alegria de forma contagiante nos outros. 

Conheci recentemente um tipo assim e embora nos tenhamos encontrado pessoalmente uma única vez, a figura humana tem sido uma constante cada vez que ouço alguns relatos de suas peripécias. 

Claro que todos nós conhecemos alguém com esse dom, mas quando se trata de um cearense a coisa muda de figura (ou a figura muda de coisa?) porque o Ceará é um celeiro de comediantes. 

No meu relato apresento-lhes um cidadão chamado Brizeno Neto, sim, Neto (por informação que tenho) só existe um no Brasil com um nome tão incomum. 

Brizeno é dessas criaturas que conseguem monopolizar o ambiente com seus relatos singulares que se tornam ímpares pela riqueza de detalhes. Difícil é concorrer com ele que, quando você pensa em quebrar o côco, a cocada já vem pronta nas respostas criativas, fruto de sua inteligência, vivacidade e capacidade de elaborar as narrativas de fatos ou versões, dependendo de quem o escuta.

Conviver com essa criatura (ouço os relatos) é ter alegria como depósito bancário, com a certeza de que o rendimento capitalizado pela sua autenticidade produzirá juros de sabedoria, abundância de risos e (o mais importante no investimento) o resgate de uma amizade desinteressada pela pureza do ser humano que é. 

Imagine o leitor que em certa ocasião Brizeno conseguiu salvar um par de sapatos do destino fatal dos sete palmos. 

O que poderia, a princípio, parecer meio sem sentido, ainda que inusitado seja, tem a explicação, se não lógica, ao menos cômica. 

Ouvi um relato de que certa vez ao chegar num velório Brizeno se deparou com o defunto usando um par de sapatos novos. 

Já no ataúde e diante da certeza do Brizeno da impossibilidade de qualquer reação do morto, chamou o responsável pelos serviços funerários a quem fez a indagação:

– Os pés ficarão cobertos?

A resposta foi a óbvia pelo modelo da urna funerária:

– Sim, senhor Brizeno. 

Sem titubear então foi sentenciado pelo inquisidor Brizeno:

– Com esses sapatos ele não seguirá. Me servem e serão meus.

E assim seguiram as exéquias.

Como terminou esse acontecimento? Bom, basta olhar para os pés do Brizeno. Ele soube aproveitar o momento certo e expropriou o “de cujus” do pisante que usa com cuidado de quem é herdeiro. 

Faltou esclarecer ao leitor que os sapatos eram do seu sogro que deve ter entrado no céu descalço, afinal, se lá chegou, foi despojado de um calçado que serve até hoje a uma boa causa. 

Quando ouvi o relato não me contive e confesso que até hoje, quando chego em Fortaleza, pergunto sempre pelo Brizeno. Invariavelmente escuto um novo relato e me ponho a rir, como se me fosse um bálsamo para a vida.

Hoje, contemplo o belo mar do Alencar, à Beira-Mar. Sinto a brisa e sorrio sozinho. Aos estanhos posso parecer um louco, mas para mim, solitariamente, apenas tenho a certeza de que minha alegria é recordar as peripécias do Brizeno, o Neto, porque ainda duvido que haja outro com um nome desses tão singular.

Que vida longa tenha o Brizeno cuja brisa é a alegria de muitos e o sorriso de tantos outros como eu.

WHATSAPP: CENSURA OU DISTRAÇÃO?

Ano 12 – Vol. 12 – N. 76/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.14567808

Tem sido prática frequente nos grupos de WhatsApp a publicação imediata de mensagens com o propósito de desviar a atenção após um artigo ou conteúdo relevante ser compartilhado por um dos membros do grupo.

Antes de tudo é necessário afirmar: grupo é um conjunto de pessoas vinculadas por pontos comuns, embora não uniformes, por isso mesmo demandando maturidade para reconhecer no outro alguém com valores, princípios, idéias e ideais que podem ser diferentes.

Esse tipo de comportamento, muitas vezes, carrega um viés ideológico e pode ser entendido como uma forma sutil de censura.

Basta que  uma pessoa compartilhe um artigo pondo na berlinda crenças ou discuta temas polêmicos e pronto. Logo outros membros do grupo publicam quase instantaneamente memes, noticias descontextualizadas, mensagens desconexas distribuídas em massa, filantropia etc.

Qual seria o objetivo disso? Qual a intenção aparentemente revelada?

Permito-me compreender que outra não seria se não deslocar o foco e impedir que o conteúdo inicial possibilite um debate – não um destemperado embate – ou reflexão.

A par de ser inconveniente, esse tipo de prática desperta questões sérias sobre a a liberdade de expressão, sinalizando intolerância no ambiente digital.

O WhatsApp é uma das diversas vias de manifestação em que deve prevalecer a noção democrática e plural de conhecimento que não se casa com a ideia de silenciamento tão difundida hoje no mundo, mas com destacados adeptos do Brasil.

Discordar é direito de qualquer um quando o assunto for matéria de gente com cognição mínima sobre o assunto. Silenciar, ao contrario, é a mais nítida característica de gente autoritária e intolerante.

Além disso, a verdadeira censura em que reside esse tipo de comportamento só enfatiza ainda mais a polarização nas redes sociais.

O ambiente virtual que hoje nos abriga e possibilita a celeridade como fator de ajustamento de tempo e espaço – tornando o mundo menor – deve assegurar o confronto saudável de ideias, sendo deletéria a prática desse tipo de gente que opta por abafar vozes contrárias, usando-se da dispersão como alternativa.

O pluralismo é um fundamento constitucional, mas sua compreensão não demanda a objetividade dogmática, residindo propriamente no campo da ética que não permite distinções seletivas: ou se é ético aqui ou na Lapônia ou não se é ético.

Portanto, esse tipo de comportamento em nada contribui para o conhecimento que formata a evolução humana.

Não receba o leitor estas palavras como uma mensagem autoritária. Por dever de oficio a reflexão é matéria prima para a Academia – ambiente em que tenho domicilio – tornada pouco afeita aos discursos que se desalinhem das pautas e mantras amarelados pelo tempo.

Como o propósito é contribuir entendo que o combate do tipo de prática aqui exposto exige que os participantes de grupos adotem posturas mais éticas e respeitem a troca de ideias.

Que tal o incentivo dialógico e a reflexão crítica como nuances do pluralismo político? A expressão (pluralismo político) é aqui utilizada em sentido amplo. Só assim, entendo, conseguiremos aplacar essa forma de censura moderna.

A liberdade de expressão é um direito natural do ser humano e deve assim ser defendida em tempos autoritários como o nosso de hoje no Brasil. Contudo, mesmo no WhatsApp, essa liberdade depende de nossa capacidade de ouvir antes de falar e de priorizar o debate em vez da dispersão.

MÃOS AO ALTO!

Ano 12 – Vol. 12 – N. 75/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.14558097

Não exagero ao afirmar que o cidadão (sociologicamente falando) é refém do crime organizado e do estado desorganizado. 

Formalmente somos uma república federativa. É o que prevê o art. 1º da Constituição da República. 

Se já não tínhamos observância aos princípios republicanos em nenhuma das órbitas – política e administrativa – passamos a destruir o mínimo de federação existente. 

Hoje princípios expressos na Constituição não passam de adornos adaptados ao plano subjetivo de cada intérprete que, na maior naturalidade, fala em “interpretação conforme”.

Conforme o que? A pessoa? O humor? A ideologia?

Não precisa ir longe. Basta observar a tal “reforma tributária” – um remendo de trapos – e um decreto sobre segurança pública. Ambos são clara interferência direta nas unidades da federação. 

A cada notícia que leio, a cada opinião veiculada pela mídia, me convenço que criminalidade e esquerdismo são irmãs siamesas, fato que se não mereceu das autoridades constituídas providência enérgica, a única solução é desconstituição delas. 

Tolerar o crime é normalizar-lhe a práticae, às vezes, sob o argumento de que roubar celular é para “tomar uma. cervejinha”.

Pelas imagens que tem se multiplicado nas redes sociais observa-se que a população começou a reagir contra a bandidagem. Isto é perigoso, mas é o retrato da falência do sistema de segurança pública.

Quem não teve aptidão para interpretar a Constituição, segmentando-a num impeachment, não pode ter sabedoria para tentar uniformizar o que é plural na sua própria essência. 

Eu não sou especialista em segurança pública, mas posso supor que a situação do Rio de Janeiro se agravou pela decisão do STF que proibiu operações policiais em morros ou “comunidades”, rótulo cadentemente apropriado pelos consumidores do tráfico de drogas em seus amplos apartamentos luxuosos dos bairros chiques que usam esse serviço pelo delivery

Não preciso dizer que por mais que o lado bom da PMRJ se esforce é o próprio estado federal que impede seu trabalho.

Agora eu imagino o lado bom da PMMA e fico a refletir se as características – exceto de princípios militares – podem ser tratadas de forma igual. Claro que a resposta é negativa. Cada estado com suas peculiaridades para combate de um crime comum: drogas e corrupção. 

Mas tenho para mim que o que aqui identifico como incompetência é na realidade a execução de um competente propósito: tornar refém de uma vez por todas os brasileiros que passaram a pagar os mais altos impostos do mundo, sofrem as maiores violência judiciárias da história e estão desarmados para o exercício elementar da defesa pessoal.

Se isto é o que a linguagem exageradamente artificial – posto que nem casta seja – chama de impulso civilizatório eu cá, por minha liberdade (ainda) permitida, denomino de projeto deformatório de civilização. 

Mãos ao alto, cidadão! Você será a próxima vítima.  O crime venceu.

EM QUE NATAL?

Ano 12 – Vol. 12 – N. 74/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.14548223

Em que Natal eu perdi meu papai Noel?

Em que momento meu sonho infantil foi interrompido e partiu meu coração?

Quando meu imaginário foi destroçado?

Quando deixei de escrever cartinhas?

Ah! Se eu soubesse que minha despedida seria mais dolorida ao ver meus pais partirem, talvez eu não tivesse reclamado do adeus ao papai Noel.

Se eu soubesse das angústias e dificuldades para me verem sorrir; se acaso supusesse a aflição dos meus pais em não me decepcionar talvez eu tivesse me comportado.

Mas, como? Não poderia. Era a criança que vivia as ilusões com que alguns não ousam sonhar. Não poderia, porque “todo menino é um rei” e eu tinha todo um reino a explorar.

Mas cresci, fui papai Noel, fiz esforços para não decepcionar e, hoje, constato que perdemos o papai Noel que partiu com a meninice, mas aos poucos a dor passou.

Hoje, já na velhice irremediável, assisto os netos e vejo crianças me trazerem o tempo de volta para relembrar Natais, reviver ansiedades embora o despertar seja sem embrulhos ao lado da cama.

A vida adulta me deu presentes, levou meu papai Noel, mas me recompensou ao me deixar memórias, filhos, netos, amigos e glórias.

Já não lembro o Natal exato em que perdi papai Noel. Talvez eu, órfão de mim mesmo, tenha sido a ilusão perdida.

Hoje daria qualquer brinquedo da minha vida para ter um instante que fosse com meu papai Noel e dizer-lhe, certamente aos prantos, que sou grato por tudo. Lembraria meu trem amarelo, meu soldadinho de chumbo, minha bola, enfim, lembraria de muita coisa. Mas o presente maior seria reencontrar meus pais para dizer-lhes com gratidão eterna: vocês foram meu maior presente porque até a eternidade eu terei motivos para me orgulhar dos pais que tive no Natal eterno de nossas vidas.

Em que Natal eu perdi papai Noel já não lembro, mas descobri com a vida que ao ler cada texto no Natal, como era missão de filho, eu encontrava no Evangelho a razão única do Natal.

Desbotado pelo tempo já não consigo lembrar quando perdi meu papai Noel, mas minha recompensa permanece viva porque pode haver até Natal sem papai Noel, mas jamais haverá Natal sem Jesus Cristo, nosso Salvador.

Que seja um Natal de paz e bênçãos a todos.