ENTRE MORTOS E VIVOS: o passado que o Brasil insiste em não ouvir quando as CPIs se aproximam

Ano 14 – vol. 02 – n. 09/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.18483162

A leitura de Civilização: Ocidente x Oriente, de Niall Ferguson, provoca uma inquietação que vai além da história comparada. O ponto que mais incomoda não é a disputa entre civilizações, mas a advertência metodológica: há muito mais mortos do que vivos, e ignoramos a experiência acumulada dessa imensa maioria por nossa conta e risco.

Se a população atual corresponde a uma pequena fração de todos os que já viveram, então a história não é ornamento intelectual; é condição de sobrevivência institucional. Quando se despreza o passado, não se comete apenas um erro acadêmico. Comete-se um erro político.

O Brasil parece padecer exatamente dessa amnésia voluntária.

Nossa história republicana, que nasceu de um golpe contra a monarquia em 1889, levou praticamente um século para consolidar formalmente a República como sistema político na Constituição de 1988. Ainda assim, permanece como que internada na enfermaria institucional, mantida sob observação constante, porque a cada momento surgem alquimistas empenhados em produzir novos embaraços para o seu funcionamento regular.

O desrespeito às instituições não é novidade. O que muda é a forma. Ontem, fechavam-se parlamentos. Hoje, esvaziam-se investigações.

É nesse ponto que o passado se torna assustadoramente presente.

As Comissões Parlamentares de Inquérito, previstas na Constituição como instrumentos legítimos de fiscalização política, passam a ser vistas como ameaça quando suas apurações se aproximam das elites políticas, econômicas ou burocráticas. A reação já não é institucional, mas corporativa. Movem-se compadrios, articulam-se bastidores, constrói-se o boicote silencioso. Não se nega formalmente a investigação — apenas se cria o ambiente necessário para que ela não produza efeitos.

O roteiro é antigo. Apenas os figurantes se renovam.

Ferguson lembra que “as pessoas prestam insuficiente atenção aos mortos”. No Brasil, talvez prestemos atenção demais aos vivos — sobretudo aos vivos que ocupam posições de poder — e atenção de menos às lições deixadas por aqueles que já testemunharam esse mesmo ciclo de degradação institucional.

Não se escreve história ignorando o passado. Tampouco se constrói República ignorando os mecanismos que a própria Constituição criou para defendê-la.

Quando CPIs são esvaziadas por pressões externas, quando investigações são desacreditadas antes mesmo de concluídas, quando narrativas são fabricadas para transformar apuração em perseguição, o que se está fazendo não é política. É a repetição histórica de uma prática que sempre antecedeu períodos de enfraquecimento institucional.

A República brasileira nasceu sem povo. Foi proclamada sem consulta popular. Precisou de cem anos para ser confirmada como forma de governo por meio do voto direto no plebiscito de 1993. E, ainda hoje, não parece ter desenvolvido anticorpos suficientes contra aqueles que a tratam como mera formalidade simbólica.

É por isso que o passado pesa.

Porque ele mostra que toda vez que as instituições de controle são desmoralizadas, a República perde substância. E uma República sem substância não precisa ser derrubada por golpes. Ela se dissolve lentamente por dentro.

Entre mortos e vivos, talvez devêssemos ouvir mais os primeiros. Eles já viram esse filme. Sabem como termina quando a sociedade aceita que investigar é inconveniente, que apurar é indesejável, que revelar é perigoso.

A lição histórica é simples: onde a investigação incomoda, a promiscuidade já se instalou. Onde se tenta impedir a apuração, a República já está doente.

E o Brasil, mais uma vez, parece preferir ignorar seus mortos para preservar seus vivos.

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