AGULHA EM PALHEIRO: Entre a descrença e a necessidade de reconstrução

Vol. 13 – N. 93 – março 2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19111732

Há expressões populares que sobrevivem ao tempo porque capturam, com precisão quase cruel, a experiência humana. “Procurar uma agulha em um palheiro” é uma delas. Traduz o improvável, o quase impossível — e, não raro, o desesperador.

Aplicada ao Brasil contemporâneo, a metáfora deixa de ser exagero retórico para assumir contornos de diagnóstico. Encontrar integridade em meio a sucessivos escândalos já não parece tarefa árdua apenas; aproxima-se perigosamente do improvável.

Se tomarmos, ainda que de forma arbitrária, os últimos trinta anos como recorte histórico, o que se vê é a consolidação de um ambiente em que a corrupção deixou de ser exceção para assumir ares de método. Não se trata mais de episódios isolados ou desvios pontuais. O que se desenha é um padrão persistente, adaptável e, sobretudo, resiliente.

A cada novo escândalo, a sensação não é de surpresa, mas de confirmação. O espanto cede lugar ao cansaço. E talvez esse seja o dado mais preocupante: a normalização do inaceitável.

Comparações outrora hiperbólicas — como aquelas que evocavam organizações mafiosas — passam a soar tímidas diante da complexidade e da sofisticação dos esquemas revelados. A corrupção, antes circunscrita a determinados espaços de poder, expandiu-se. Transbordou. Hoje, infiltra-se em múltiplas camadas institucionais, tornando difusa a linha que separa o lícito do ilícito, o público do privado, o dever do interesse.

Nesse cenário, emerge uma inversão perturbadora: torna-se mais difícil identificar a integridade do que reconhecer a desonestidade. A distinção entre joio e trigo, como bem sugere a tradição bíblica, passa a exigir um grau de discernimento que a realidade concreta já não facilita.

Os episódios recentes — envolvendo estruturas financeiras, órgãos públicos e agentes investidos de autoridade — reforçam a percepção de que há muito ainda por revelar. O que se vê pode ser apenas a superfície. O “tapete” é grande, e a “vassoura”, ao que tudo indica, tem sido utilizada mais para ocultar do que para limpar.

Nesse contexto, iniciativas voltadas ao controle de narrativas, especialmente no ambiente digital, despertam legítima preocupação. A regulação de espaços de debate é, em si, um tema complexo e necessário. Contudo, quando associada a momentos de crise institucional e a revelações sucessivas de irregularidades, a tentativa de controle pode ser percebida não apenas como política pública, mas como estratégia de contenção de danos. E isso, por si só, já compromete sua legitimidade.

Não é de hoje que denúncias graves são recebidas com descrédito seletivo. Desqualifica-se o mensageiro, relativiza-se o conteúdo, preserva-se o sistema. Durante anos, indícios foram tratados como exageros, boatos ou narrativas inconvenientes. Hoje, parte desse material ressurge sob a forma de fatos, e a realidade parece superar, com folga, qualquer suspeita anterior.

Diante desse quadro, o ceticismo não é apenas compreensível — é, em certa medida, racional. A dúvida quanto à efetividade das punições, quanto à profundidade das investigações e quanto à real disposição de ruptura com práticas arraigadas não nasce do pessimismo gratuito, mas da observação reiterada da história recente.

Ainda assim, é precisamente nesse ponto que se impõe uma distinção fundamental: ceticismo não pode ser confundido com resignação.

A ideia de que combater a corrupção no Brasil é como procurar uma agulha em um palheiro pode traduzir o sentimento coletivo, mas não pode servir de justificativa para a inércia. Ao contrário, deve funcionar como alerta sobre a dimensão do desafio.

Reconstruir uma sociedade com fraturas tão visíveis exige mais do que indignação episódica. Requer instituições dispostas a cumprir, de forma efetiva, suas funções; requer mecanismos de controle que não se dobrem a conveniências; requer, sobretudo, uma cultura política que rejeite o pragmatismo da impunidade.

Não se trata de ingenuidade. A história recomenda cautela. Mas também não autoriza o abandono da esperança.

Porque, no limite, toda transformação institucional relevante começou exatamente assim: em um ambiente de descrença generalizada, onde poucos acreditavam ser possível encontrar a tal agulha.

Talvez ela continue escondida no palheiro. Mas a diferença entre um país que se perde e um país que se reconstrói está em algo simples — e decisivo: continuar procurando.

A MULHER: realidade biológica, respeito humano e a necessidade de liberdade intelectual

Vol. 13 – N. 92 – março 2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19049633

Vivemos um tempo curioso. Em muitas ocasiões, aquilo que durante séculos foi considerado evidente passou a exigir explicações. Não porque a realidade tenha mudado em sua essência, mas porque o debate público frequentemente se tornou confuso, misturando linguagem, ideologia e fatos objetivos. Entre esses temas está a própria definição do que seja uma mulher.

Antes de qualquer polêmica, convém recordar algo simples: a ciência descreve a mulher como a pessoa do sexo feminino da espécie humana. Essa definição repousa em critérios biológicos claros, presentes na genética, na fisiologia e na reprodução. A biologia identifica o sexo feminino pela combinação cromossômica XX, pelo desenvolvimento de estruturas reprodutivas próprias e pela capacidade — ainda que potencial — de gestar e dar à luz novos seres humanos.

Essa constatação não é fruto de crença cultural nem de preferência ideológica. Trata-se de um dado científico consolidado em áreas como a biologia, a medicina e a genética.

Mas a mulher não é apenas um conceito biológico. Na experiência humana concreta, ela também é presença afetiva, familiar e social. Todos nós compreendemos o significado da palavra “mulher” a partir de nossas próprias histórias: a mãe que nos deu a vida, a avó que transmitiu valores, as companheiras que partilharam caminhos, as filhas que representam continuidade e esperança. A palavra carrega, portanto, não apenas um sentido científico, mas também uma dimensão profundamente humana.

A história da humanidade está marcada pela força feminina. São mulheres que gestam, que nutrem, que educam e que frequentemente sustentam, com coragem silenciosa, o cotidiano das famílias e das comunidades. A maternidade, quando ocorre, é uma das expressões mais visíveis dessa realidade biológica e humana: a capacidade de gerar vida, alimentar e proteger o recém-nascido. Mesmo quando essa experiência não se realiza, a condição feminina permanece definida pela mesma base biológica que caracteriza o sexo feminino.

Entretanto, o debate contemporâneo tem sido atravessado por um fenômeno que pouco contribui para o esclarecimento: o radicalismo. Em diversos momentos da história, quando ideias passam a ser impostas como dogmas inquestionáveis, abre-se caminho para formas de autoritarismo intelectual. A ciência deixa de ser instrumento de conhecimento e passa a ser pressionada a confirmar narrativas previamente estabelecidas.

Esse fenômeno não é novo. O radicalismo sempre foi um obstáculo ao progresso humano. Quando sociedades deixam de discutir ideias livremente e passam a impor definições pela força cultural, política ou moral, o resultado quase sempre é o atraso. O autoritarismo, ainda que revestido de boas intenções, tende a sufocar o pensamento crítico e a liberdade de investigação.

A evolução da humanidade ocorreu justamente pelo caminho inverso: o debate aberto, a liberdade científica e o reconhecimento honesto da realidade. Foi assim na medicina, na física, na biologia e em praticamente todos os campos do conhecimento. Sempre que a verdade factual foi substituída por imposições ideológicas, o resultado foi regressão.

Isso não significa negar respeito a quem quer que seja. O princípio da dignidade humana exige que todas as pessoas sejam tratadas com consideração, independentemente de suas escolhas pessoais, identidades ou formas de viver. O respeito é condição essencial da convivência civilizada.

Mas respeito não exige negar fatos. A convivência madura pressupõe duas atitudes simultâneas: reconhecer a dignidade de cada indivíduo e manter honestidade intelectual diante da realidade. Uma sociedade livre precisa preservar ambos os valores.

Assim, afirmar que mulher é o ser humano biologicamente feminino não constitui um ato de exclusão. Trata-se simplesmente de reconhecer uma realidade científica que precede qualquer disputa ideológica. O diálogo social não se fortalece quando a realidade é negada, mas quando diferentes perspectivas podem conviver sem coerção.

Em última análise, reconhecer a mulher em sua realidade biológica também é uma forma de valorizá-la. É reconhecer que há algo singular no feminino — uma combinação de corpo, história e experiência que moldou civilizações inteiras.

A mulher, nesse sentido, não é uma construção arbitrária nem um simples rótulo linguístico. É uma realidade concreta da natureza humana — e, ao mesmo tempo, uma presença que atravessa a história como fonte de vida, cuidado e beleza.

Respeitar todas as pessoas é um dever moral. Reconhecer a verdade factual da biologia é um dever intelectual. E resistir ao radicalismo e ao autoritarismo — venham de onde vierem — é uma condição necessária para que a humanidade continue a avançar em liberdade, conhecimento e dignidade.

A PRAÇA E A PLACA

Vol. 13 – N. 91 – março 2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19004133

Acostumado a sentar-se no mesmo banco da mesma praça e à mesma hora aquele senhor de cabelos prateados pelo tempo observava o movimento da cidade.

Solitário, embora não sozinho, naquela manhã agradável assistiu a um fiscal da prefeitura, com mais dois ou três auxiliares, afixar uma pequena placa com um sinal de advertência seguido pela inscrição que dizia:

É PROIBIDO pisar na grama.

O que a tantos poderia soar como mais uma simples placa, aos mais precavidos soaria como uma advertência e aos comedidos como uma norma proibitiva empiricamente compreendida; àquele senhor de cabelos embranquecidos despertou uma curiosidade imediata.

Aquela regra contida na placa e aposta no jardim da praça teria sido violada pelo fiscal e seus auxiliares ao pisarem na grama?

Mas não era tudo. Mais longe foi a imaginação daquele senhor ao pretender saber se aquela regra seria suficiente pelo que continha de enunciado ou precisaria de mais alguma coisa para ser compreendida e cumprida?

A praça, figurativamente, é o cenário em que residem todas as alegorias que compõem o ambiente. Assim, bem que a praça poderia ser batizada de LIBERDADE, onde o homem descansava dos anos carregados sobre as costas. A placa bem poderia ser a CONSTITUIÇÃO em que repousa a grama verde pela chuva e que é imune à ação de qualquer jardineiro – a menos que do jardim não cuide.

Aquela placa, portanto, é o parâmetro de toda e qualquer conduta dos homens que sentem naquele banco ou não, porque conquanto esteja afixada no jardim a todos se dirige o comando expresso.

De certo que entre os transeuntes pode soar indiferente a regra, uma vez que seu enunciado presumivelmente se aplicaria apenas àqueles que estão na praça. Mas isso não passa de um engano de perspectiva já que a placa daquela praça contém em seu enunciado bem mais do que prevê, já que diz, com imperfeição (quem sabe!) de enunciado que em todos os jardins de todas as praças é PROIBIDO PISAR NA GRAMA.

Pois os fiscais da prefeitura não se eximem da regra, já que a praça e o jardim compõem o ambiente em que todos vivem e por isso mesmo não podem se eximir da observância impessoal e geral das regras.

Nem queiram alegar que estão investidos do poder de afixar placas pela cidade em outros jardins e isto os tornaria aptos a pisar ou não pisar na grama. Não há, na apreensão do conteúdo, espaço imaginário capaz de receber unção de interpretação construtiva, como se a excepcionalidade sofresse mutação de privilégio.

Na vida, como no conto em ponto estreito, a PLACA contém menos do que CONTEMPLA, seja por enunciado defeituoso, seja por intelecção rasteira, seja por percepção maldosa a produzir delírios de privilégios.

As placas que existem enunciam. Trazem o DITO e o NÃO DITO, mas nem por presunção contemplam a possibilidade de ilação de que existem placas que só a ALGUNS a regra proibitiva ou permissiva se destinam, porque entre homens, praças, bancos e jardins ou se constrói a civilização ou teremos apenas um muro a separar personagens.

Do seu banco, reflexivo, sobre todas essas coisas, aquele homem de cabelos brancos guardava consigo o sentimento silencioso; sentenciou para si mesmo:

Praças com muros viram guetos, daqueles que segregam, que separam, por homens que trazem nas algibeiras as chaves dos porões fétidos, dos campos que viram masmorras, onde é proibido ouvir o canto dos pássaros, sofejar as melodias de liberdade.

Na praça, como na vida, a PLACA sobre o jardim gramado a todos conduz a uma só compreensão: ou TODOS estão sob o enunciado da LEI ou não existirão mais praças, nem bancos, nem homens, nem jardins, nem liberdade.

 

PROMISCUIDADE “ON THE ROCKS”: moralidade republicana e o decoro das instituições

Vol. 13 – N. 90 – março 2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.18958472

Há memórias que sobrevivem ao tempo porque não são apenas lembranças afetivas. Elas carregam lições de vida. A recordação que guardo de meu pai está entre essas. Mais do que a educação doméstica e a formação cristã vigorosa, ele possuía algo que hoje parece escasso no espaço público brasileiro: um senso claro de valores e limites éticos.

Nem sempre a juventude é fiel às advertências que recebe. Em certos momentos, a imprudência própria da idade leva a escolhas equivocadas. Contudo, alguns ensinamentos permanecem e retornam com força ao longo da vida. Um deles, repetido por meu pai, era simples e exigente ao mesmo tempo: ser ético é agir corretamente mesmo quando ninguém está olhando — e ter a certeza de que, se alguém olhasse, não se envergonharia de nossas atitudes.

Esse princípio veio-me novamente à memória quando o país foi surpreendido por notícias que relatam um encontro ocorrido no exterior. À mesa, segundo amplamente divulgado pela imprensa, teriam estado ministros do Supremo Tribunal Federal, o Diretor-Geral da Polícia Federal, o Procurador-Geral da República e um banqueiro atualmente preso e investigado por um amplo conjunto de crimes que, somados, poderiam significar décadas de prisão.

Independentemente de versões ou justificativas que venham a ser apresentadas, a simples existência de um encontro dessa natureza provoca perplexidade. Não se trata de mera formalidade social. Quando autoridades que exercem funções centrais no sistema de justiça se reúnem, ainda mais em ambiente privado e com alguém diretamente envolvido em investigações ou processos relevantes, surge inevitavelmente uma questão de ordem institucional: o decoro.

Recordo então um episódio de minha juventude. Meu pai foi juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão e integrou aquela Corte por diversas reconduções, sempre com reputação ilibada. Certa ocasião recebeu publicamente um convite para jantar na residência do então governador João Castelo, que possuía processo em julgamento no tribunal.

Dentro do carro, curioso, perguntei-lhe se iria ao encontro. A resposta foi imediata:

— Meu filho, como eu poderia olhar para minha família e para as pessoas em geral se eu fosse jantar na casa de quem acabei de julgar? Não seria ético, não seria moral e não haveria decoro da minha parte.

Nunca esqueci aquela frase. E ela retorna agora com força diante das notícias que ocupam o debate público.

O ponto central não é a sociabilidade entre autoridades. O problema é outro: a preservação da confiança institucional. A República exige que aqueles investidos em funções públicas mantenham uma distância prudente de interesses que possam comprometer sua imparcialidade. Não se trata apenas de evitar irregularidades concretas; trata-se de impedir qualquer aparência de promiscuidade entre poder público e interesses privados.

A tradição republicana sempre colocou a moralidade pública como um de seus pilares fundamentais. A separação de poderes, por sua vez, não é apenas uma arquitetura jurídica desenhada nos textos constitucionais. Ela depende de comportamentos que expressem compostura, autocontenção e respeito às fronteiras institucionais.

Quando essas fronteiras se tornam difusas, o risco não é apenas jurídico — é civilizatório.

A história política brasileira é repleta de exemplos em que homens e instituições se confundiram. Como se ainda sobrevivesse entre nós um resquício de mentalidade absolutista, certas figuras parecem acreditar que o cargo público lhes confere uma espécie de imunidade moral. Assim surgem os novos “coronéis das leis”: autoridades que, envoltas em gravatas de seda e relógios de luxo, agem como se estivessem acima das instituições que deveriam servir.

Nesse ambiente, ganha força um paradoxo curioso. Enquanto se multiplica o discurso em defesa do controle das redes sociais sob o argumento da proteção da democracia, cresce também a suspeita de que aquilo que se pretende controlar não é o excesso de informação, mas o excesso de transparência. O problema passa a ser não o fato em si, mas o fato de que o público tenha acesso a ele.

Contudo, em regimes republicanos, a luz pública é um elemento essencial de controle. O segredo e a opacidade são sempre perigosos quando envolvem o exercício do poder.

Diante de episódios como o que veio a público, a única resposta compatível com a ordem constitucional é a investigação rigorosa e transparente. Não se trata de condenar previamente ninguém, mas de reconhecer que a gravidade institucional do fato exige esclarecimento completo.

O silêncio ou o esquecimento não são alternativas aceitáveis. A confiança nas instituições depende da disposição real de examinar condutas e responsabilidades, sobretudo quando envolvem autoridades que exercem funções essenciais na defesa da lei.

Talvez ainda venham à tona novos elementos. A própria imprensa já relata que apenas parte do conteúdo apreendido nos aparelhos do banqueiro foi analisada, enquanto dezenas de outros dispositivos ainda aguardam investigação. O tempo, como sempre, é um aliado da verdade.

O que não pode ocorrer é a naturalização da promiscuidade entre poder e interesse privado. A República não sobrevive sem limites éticos claros.

Talvez, quando tudo isso for devidamente esclarecido, o país possa enfim celebrar uma vitória institucional. Não com uísques raros e charutos importados. Bastaria algo muito mais simples.

Um copo d’água.

Água suficiente para matar a sede de moralidade pública — e, quem sabe, dissolver de vez a promiscuidade “on the rocks”.

QUANDO AS INSTITUIÇÕES PRECISAM SER SALVAS

Vol. 13 – N. 89 – março 2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.18923639

Há momentos na história de um país em que os fatos falam mais alto do que as versões. Chega um ponto em que as narrativas defensivas deixam de convencer e o debate precisa ser deslocado para aquilo que realmente importa: a preservação das instituições.

O Brasil parece ter chegado a um desses momentos.

Não se trata mais de discutir justificativas pessoais, versões políticas ou disputas de interpretação. A dimensão factual do que vem ocorrendo nos últimos anos revela um quadro preocupante: escândalos sucessivos, repetidos sob diferentes circunstâncias, atravessando governos e estruturas de poder. Em qualquer república madura, a repetição sistemática de crises institucionais exigiria respostas firmes e imediatas.

O problema se agrava quando, no centro do furacão, surgem autoridades que deveriam precisamente representar o oposto disso. São agentes investidos de funções destinadas a preservar a ordem constitucional, garantir o cumprimento da lei e proteger a integridade das instituições. Quando essas próprias estruturas passam a ser envolvidas em controvérsias que comprometem a confiança pública, a crise deixa de ser política e passa a ser institucional.

Uma república não se sustenta sobre homens providenciais, nem sobre a infalibilidade de autoridades. Ela se sustenta sobre instituições que funcionam, regras que são respeitadas e mecanismos de responsabilidade que são acionados quando necessário. A lógica republicana exige exatamente isso: que as instituições sobrevivam aos homens e não que os homens sejam preservados às custas das instituições.

Por essa razão, o debate que se impõe agora não é sobre defesa corporativa, mas sobre responsabilidade institucional.

O corporativismo, em ambientes de poder, costuma surgir como reflexo automático de autoproteção. Autoridades defendem autoridades, estruturas protegem suas próprias estruturas e, pouco a pouco, cria-se um ambiente de cumplicidade silenciosa. O problema é que, quando essa proteção ultrapassa os limites da legalidade, ela deixa de ser solidariedade institucional e passa a se tornar coautoria moral de eventuais desvios.

Em termos simples: quem protege irregularidades para preservar cargos ou reputações institucionais acaba contribuindo para o próprio enfraquecimento da instituição que pretende defender.

É nesse ponto que a Constituição brasileira estabelece mecanismos claros de controle entre os poderes. Entre eles está a responsabilidade política atribuída ao Senado Federal em determinadas situações envolvendo autoridades de alta hierarquia. Esse dispositivo não existe como ornamento constitucional; ele foi concebido precisamente para momentos de tensão institucional.

Ignorar esse instrumento equivale a esvaziar uma das engrenagens mais importantes do sistema de freios e contrapesos.

Diante de crises graves, as repúblicas costumam conhecer dois caminhos possíveis. O primeiro é o da autocorreção institucional: autoridades reconhecem a gravidade da situação, assumem responsabilidades e permitem que as instituições se recomponham. Em alguns casos, isso ocorre por meio de renúncias ou afastamentos voluntários, gestos que preservam a dignidade da função pública e reduzem o dano institucional.

O segundo caminho é o da omissão prolongada. Nele, as instituições são lentamente desgastadas enquanto os homens se agarram aos cargos. A história demonstra que esse caminho raramente termina bem para qualquer república.

Por isso, o momento atual exige uma reflexão simples, mas fundamental: instituições existem para servir ao país, não para proteger indivíduos. Quando a defesa pessoal se sobrepõe à defesa institucional, a lógica republicana se inverte e o sistema começa a ruir por dentro.

Salvar as instituições pode exigir decisões duras. Pode implicar responsabilizações, revisões e, em alguns casos, gestos de grandeza política. Mas é exatamente isso que diferencia uma república saudável de um sistema que caminha para a erosão institucional.

Em última análise, o verdadeiro compromisso com a Constituição não se prova quando tudo vai bem. Ele se revela justamente quando é necessário escolher entre preservar homens ou preservar instituições.

E, numa república digna desse nome, essa escolha nunca deveria ser difícil.