Ano 13 – vol. 10 – n. 100/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.17487937
O terrorismo urbano como nova forma de opressão e a falência do discurso de vitimização no Brasil contemporâneo é uma temática que não pode ser afastada de discussão por fatos repetidos e que, agora, desembocaram nos acontecimentos trágicos no Rio de Janeiro. Ontem foi lá; a amanhã, em qualquer parte deste território continental dominado pelo crime.
Desde que me entendo por gente, o discurso público brasileiro tem se estruturado em uma narrativa tão sedutora quanto enganosa: a do embate entre fortes e fracos, oprimidos e opressores. Essa retórica, repetida à exaustão, ocupa as salas de cinema, as manchetes e as tribunas, criando um mito social em que o delinquente é retratado como herói trágico de um sistema injusto.
A sociedade, entretanto, parece ter esquecido um detalhe essencial: o crime organizado já não é um sintoma da exclusão social, mas uma estrutura de poder opressora, que domina territórios, impõe leis próprias e desafia abertamente o Estado.
Perambulam pelas ruas os que ainda resistem a aceitar a queda do muro e persistem no discurso opaco do oprimido versus opressor, como causa do cenário.
Durante décadas, muitos insistiram em justificar a criminalidade urbana sob o manto da desigualdade. O “ladrão de galinhas” e o “batedor de carteiras” eram personagens que o romantismo político tratava como vítimas de um sistema excludente.
Mas o cenário mudou. As milícias e facções substituíram o pequeno infrator. Hoje, comandam redes de energia clandestina, distribuição de gás, transporte alternativo e até conexões digitais. O que antes era “reação social” tornou-se empresa do crime, regida pelo terror e pela intimidação.
O fetiche pela delinquência — travestido de discurso humanista — transformou-se em escudo ideológico para a inércia estatal. E o que é pior: as vítimas reais passaram a ser os cidadãos honestos, encurralados em territórios dominados.
É comum ouvir que “violência não se combate com violência”. Trata-se de um clichê confortável para quem nunca enfrentou o fuzil de um traficante. Não se trata de defender excessos, mas de reconhecer que o Estado existe para exercer o monopólio legítimo da força — não para abdicar dela em nome de uma ingenuidade que mata.
O terrorismo urbano brasileiro não é mera figura retórica. É a expressão de uma guerra não declarada, na qual o poder paralelo impõe medo e controla vidas.
Cada território em que a autoridade pública é impedida de atuar representa um avanço da barbárie sobre a civilização.
Quando o Supremo Tribunal Federal, por meio da ADPF 635, suspendeu operações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro, poucos compreenderam o alerta de que o resultado seria o fortalecimento do crime. Cinco anos depois, o prognóstico se confirmou: o narcotráfico consolidou seu domínio territorial e bélico.
A retomada dessas áreas hoje exige um custo humano e institucional imenso — preço pago por decisões que confundiram garantismo com complacência.
Enquanto isso, a narrativa da opressão continua a romantizar o delinquente, negando o direito de defesa da sociedade. Não há liberdade possível onde o cidadão precisa pedir permissão ao crime para circular. O direito constitucional de ir e vir não é ideológico: é civilizatório.
A sociedade brasileira precisa romper, de uma vez por todas, com o fetiche pela delinquência.
Não há justiça social na condescendência com o crime.
Não há humanidade em abandonar as vítimas à própria sorte em nome de um discurso político que mascara a covardia como empatia.
O Brasil precisa reconhecer que o verdadeiro oprimido é o cidadão refém do medo, e que a autoridade legítima, quando atua dentro da lei, não é opressora, mas garantidora da ordem democrática.
Cada espaço cedido ao bandido é um pedaço da soberania nacional perdido — e cada silêncio cúmplice, uma capitulação moral diante do terror.