Ano 12 – Vol. 09 – N. 53/2024
Acabo de tomar conhecimento da perda de um amigo de juventude. Ainda impactado pela partida de Carlos Augusto Pereira dos Santos. Para mim, e para tantos da mesma geração, Carlinhos, como carinhosamente o chamávamos.
É estranho lembrar que há poucos meses tenhamos nos sentado no velório da sogra dele, a caríssima professora Teresa Pflueger, e tenhamos posto o papo em dia. Foi uma espécie de “prestação de contas da amizade”, mesmo que desnecessário fosse.
Falamos sobre muitas pessoas, de muitas aventuras de juventude, de algumas farras, mas, também, das famílias, dos caminhos que cada um de nós tomou.
À distância, sem comentários, mas apreciando os textos, ele chegou a me dizer que não era de interagir, mas que apreciava o que eu escrevia, tendo me dito que algumas cosias eram como se eu traduzisse a fala dos inquietos de nossa geração.
Nossas famílias eram próximas porque naquela cidade pequena em que um dia vivemos não havia celular, mas a garantia era dizer de quem era filho, uma espécie de “chip” que nos monitorava. Sabe aquele provérbio popular cristão: Diz-me com quem andas e te direi quem és? Pois é, assim era o nosso involuntário monitoramento.
Seria difícil descrever autenticamente a amizade quando as pessoas partem. Geralmente a tendência é encontrar só virtudes em quem parte, como se isso nos absolvesse de algum pecado cometido e da incapacidade de termos eventualmente pedido perdão por alguma falha. No nosso caso, felizmente, nunca houve esse tipo de necessidade. Se próximo não estávamos no cotidiano, nossos filhos, sem saber do vigor de uma amizade sincera, nos representavam, porque são eles o que dimensionam nossa dignidade e capacidade de sermos seus pais.
Fico na solidão de meu escritório em casa recolhendo o imaginário da areia da praia do Olho D’água, onde algumas vezes amanhecemos só batendo papo. Sigo até o corso de carnaval quando usávamos macacões usualmente fornecidos pela Companhia Moraes ou pela Coca-Cola. Não deixo de ir à boate do BEM, ao boteco do Parque do Bom Menino, aos churrascos e feijoadas, aos eventos do TLC no Seminário Santo Antonio, passo pelas gincanas de que participávamos e não consigo ver se não a lembrança amarga de que o tempo passou e nós envelhecemos. Contudo, jamais ficamos velhacos, senão senhores com o prateado da lua cheia nas nossas cabeças
Acho que aquele encontro foi nossa despedida da maneira mais sincera que pode existir entre duas pessoas que sabiam o valor da amizade, sem qualquer vinculação material, apenas o bem querer que hoje falta tanto à humanidade.
Sabe de uma coisa? Deus será paciente contigo, meu irmão. Aquela gagueira que nos fazia, às vezes impacientes, mas geralmente nos divertia por tua própria sugestão, será um motivo para que Ele te diga: Bate o pó das sandálias e entra. De cá terás a verdadeira compreensão do que a amizade é capaz.
Segue em paz e que Deus abrace toda a tua família.